Texto e Fotos: Thiago Rahal Mauro Vídeos: Cintia Azalini
Após pelo menos uma década de espera e apreensão os fãs do Iced Earth finalmente assistiram a banda, ao vivo, em São Paulo, numa das melhores casas de show do país, a famosa Via Funchal. Quem não viveu intensamente a década de 90 e o começo dos anos 2000 certamente não deve se lembrar de quando o grupo quase veio para cá; por isso, contarei um pouco dessa história. No período em questão, os norte-americanos haviam acabado de lançar o álbum Horror Show (2001), além de estar com a sua melhor formação e também no auge de sua popularidade no país. Chegaram a confirmar shows no Brasil sendo alguns deles ao lado do Nevermore, porém não se apresentaram e frustraram mídia e os fãs.
Meses depois, o vocalista Matthew Barlow decidiu sair do grupo alegando que não se sentia mais à vontade em se apresentar em uma banda de Heavy Metal. Isso tudo logo após os atentados de 11 de setembro de 2001 contra as Torres Gêmeas, em Nova Iorque (EUA). Em seguida, virou policial e trabalhou para o Departamento de Polícia de Georgetown, Delaware (EUA). No seu lugar entrou Tim "Ripper" Owens, que havia sido despedido do Judas Priest após a notícia de que Rob Halford estava de volta à banda. Lançaram dois álbuns – The Glorious Burden (2004) e Framing Armageddon Something Wicked Part I (2007) – e conseguiram grandes feitos ao redor do mundo, além de tocar em alguns festivais como o alemão "Wacken Open Air".
Porém, Jon Schaffer demitiu de forma repentina o vocalista Tim "Ripper" Owens e para a surpresa de todos, Matthew Barlow estava de volta para gravar e lançar o disco The Crucible Of Man - Something Wicked Part II (2008). Com a confirmação de uma turnê sul-americana, os fãs estavam mais do que ansiosos para que o grupo apresentasse um set list especial no Brasil, já que era a primeira vez do Iced Earth por aqui. E eles não fizeram feio, muito pelo contrário.
Noite de Autógrafos (sexta-feira, 05/02)
Que os fãs são importantes para uma banda disso eu não tenho a menor dúvida, mas o que eles tem conseguido ultimamente não é brincadeira. Petições on-line, ações diretas com os produtores de shows e, principalmente, à vontade de ver sua banda favorita ao vivo, ajudam e muito na hora de convencer os músicos a se apresentar em locais nunca antes visitados. Acompanhei de perto essa mobilização, principalmente do site oficial brasileiro do Iced Earth (icedearth.com.br); e vi o quanto é importante os produtores tupiniquins terem um certo feedback direto dos fãs.
Com a ajuda do site brasileiro conseguiram mais duas datas para o Brasil – Belo Horizonte (4) e Curitiba (7) – e por fim uma noite de autógrafos na loja Animal Records, na Galeria do Rock, em São Paulo (SP). Que fique claro que não foram os membros do site que fizeram o evento na Galeria do Rock, eles apenas ajudaram na organização das filas e da acomodação da banda. Cerca de 600 pessoas compareceram ao local, que mais parecia uma casa de shows devido à tamanha empolgação de todos. Um prelúdio do que seria o show na Via Funchal.
Apesar do calor infernal que estava dentro da loja, os músicos Jon Schaffer (guitarras e vocal), Matthew Barlow (vocal), Troy Seele (guitarras), Brent Smedley (bateria) e Freddie Vidales (baixo) autografaram e tiraram fotos (na medida do possível) com todo mundo, estendendo inclusive o tempo anteriormente combinado. São ações como essas que os fãs esperam de suas bandas, infelizmente muitas não são assim. Ao final, a banda agradece a presença de todos prometendo realizar um ótimo show em São Paulo.
O Show
É complicado falar em poucas palavras o que presenciei no último sábado (6), na Via Funchal. Sem dúvida, a apresentação está entre as cinco melhores que vi na vida, tamanha a empolgação do público presente. Como explicar então que um único show pudesse surpreender uma banda com mais de 20 anos de estrada de tal forma, que nem eles saberiam elucidar?
A empolgação era tamanha que mesmo antes do horário marcado os fãs já gritavam pela banda com os já tradicionais "Olê, Olê, Olê", além de bradar os nomes dos músicos. A apresentação começou com um pequeno atraso, às 22h15, com a introdução In Sacred flames, seguida de Behold the Wicked Child, ambas do último disco do grupo The Crucible Of Man – Something Wicked Part II (2008). Durante a música o microfone de Matthew Barlow chegou a falhar por alguns momentos, mas não comprometeu a sua performance já que o público o ajudou intensamente.
Em seguida, a faixa Burning Times(Something Wicked This Way Comes, 1998) me fez relembrar os tempos de adolescência, principalmente por está música fazer parte de um dos melhores álbuns ao vivo de todos os tempos, o magistral Alive In Athens. Banda e público não acreditavam no que viam, pois todos ali presentes cantaram seu refrão em uníssono. Emendaram com a primeira da era Tim "Ripper" Owens da noite a faixa Declaration Day, do álbum The Glorious Burden (2004). Matthew Barlow mostrou a todos que este trabalho poderia ter sido lançado com a sua voz já que ele também gravou este disco, mas por outros motivos fora substituído por Ripper Owens. Agora eu pergunto, será que um dia teremos a chance de escutar o álbum inteiro com ele nos vocais?
Na sequência, duas faixas arrasa-quarteirões: Violate, do álbum The Dak Saga (1996) e Pure Evil (Night Of The Stormrider, 1992). Se ainda existia alguém parado, este foi devidamente sugado pela energia presente na casa, pois era impossível ficar quieto com essas músicas. Agora, a primeira mudança em relação ao set de Belo Horizonte. Não, eles não mudaram as músicas, apenas a ordem de algumas faixas. E entre elas estava Dracula, do excelente Horror Show (2001) e que foi inspirada no filme de mesmo nome. Destaque para os músicos Troy Seele (guitarras), Brent Smedley (bateria) e Freddie Vidales (baixo) que se mostraram entrosados e em ótima forma, sobretudo o guitarrista Troy Seele.
Pure Evil (Night Of The Stormrider, 1992)
Dracula (Horror Show - 2001)
Para acalmar os ânimos nada melhor do que a belíssima Melancholy (Holy Martyr), do álbum Something Wicked This Way Comes (1998). Mais uma vez destaco o vocalista Mattew Barlow, que se mostrou incrível durante toda a apresentação. Emendaram com a melhor faixa da era Ripper Owens, Ten Thousand Strong, do disco Framing Armageddon – Something Wicked Part I (2007). A dificuldade dessa música é tamanha que se percebia facilmente as veias da testa do vocalista exalarem para fora de sua cabeça. Inteligentemente, colocaram a faixa Stormrider logo na sequência para que Barlow descansasse. "Gostaria de agradecer a todos vocês por terem vindo hoje, mesmo depois de 20 anos de espera", disse Jon Schaffer antes de cantar Stormrider. "Nunca mais deixaremos de vir para cá, isso é uma promessa", completou o guitarrista.
Ainda tocaram uma das melhores faixas do álbum The Dark Saga (1996), The Hunter, que teve seu refrão cantado em uníssono por todos. Fecharam a primeira parte do show com a trilogia presente no álbum Something Wicked – com as faixas Prophecy, Birth Of The Wicked e The Coming Curse – sendo estas músicas um show à parte em todo a apresentação.
Prophecy (Something Wicked This Way Comes, 1998)
Durante o BIS o público cantou parte do refrão de Watching Over Me. Para quem é fã do grupo, foi algo inesquecível. Assim que o Iced Earth voltou ao palco o público recomeçou a cantar. "Oh I know, oh I know, he’s watching over me". Schaffer e Seele foram conversar com o baterista Brent Smedley, que em seguida respondeu negativamente com a cabeça – o que deu a entender que eles não tocariam mesmo a música. Se eles realmente não estavam ensaiados para isso, foi a melhor opção já que fazer feio perante uma platéia tão criteriosa seria péssimo para o grupo.
Tocaram a pesadíssima Dark Saga e a maravilhosa A Question Of Heaven, ambas do disco The Dark Saga (1996). Nesta última em especial, era possível avistar uma série de marmanjos com mais de 30 anos nas costas chorando copiosamente o refrão dessa música. Impagável. Ainda apresentaram a excelente My Own Savior (Something Wicked This Way Comes, 1998) antecedendo a catarse final.
Dark Saga e A Question Of Heaven, ambas do disco The Dark Saga (1996)
Antes de finalizar a apresentação, Matthew Barlow mandou um sonoro "Fuck You" para o show da cantora americana Beyoncé que acontecia naquele mesmo momento em São Paulo. "Aqui estão os melhores fãs do mundo", completou o vocalista. Fecharam o show com Iced Earth faixa título do primeiro álbum.
Iced Earth - Faixa título do primeiro álbum.
Durante todo o evento, o público foi extremamente participativo. Há anos não via uma empatia entre fãs e banda tão perfeita como a que aconteceu na Via Funchal. Resta esperar para que a banda volte sempre ao nosso país e, quem sabe, para gravar um novo álbum ao vivo. Show sensacional!
Line-Up:
Jon Schaffer (guitarras e vocal)
Matthew Barlow (vocal)
Troy Seele (guitarras)
Brent Smedley (bateria)
Freddie Vidales (baixo)
Set List
01 - In Sacred Flames
02 - Behold The Wicked Child
03 - Burning Times
04 - Declaration Day
05 - Violate
06 - Pure Evil
07 - Dracula
08 - Melancholy (Holy Martyr)
09 - Ten Thousand Strong
10 - Stormrider
11 - The Hunter
Something Wicked - Trilogy
12 - Prophecy
13 - Birth Of The Wicked
14 - The Coming Curse
Bis
15 - Dark Saga
16 - A Question Of Heaven
17 - My Own Savior
18 - Iced Earth